terça-feira, 3 de julho de 2018

Aos 97 anos, Palmira Sobral dedica orações para ver seleção ganhar



TERÇO E VELA. Palmira Sobral, aos 97 anos, cumpre ritual para ajudar Brasil a vencer

As contas do rosário deram cinco voltas nas mãos de dona Palmira Sobral e as duas velas bentas, uma para cada gol do Brasil contra o México, queimaram quase pela metade. O ritual realizado à risca deu certo mais uma vez e Palmira, aos 97 anos, pode se orgulhar de continuar a cumprir o que ela acredita ser uma missão.“Tenho a impressão de que, eu rezando, com velinha acesa, protege eles, ajuda a iluminar”, põe fé.

Mãe de uma turma de 11 filhos, como um time de futebol, Palmira guarda a mesma blusa há quatro Copas do Mundo. A cada jogo do Brasil, se coloca de frente para TV, não sem antes acender a vela, e torce como quem reza. Vai debulhando o rosário, vindo de Jerusalém, que lhe acompanha desde o Mundial do Brasil-2014, e comenta o jogo com o olhar de quem já assistiu a mais partidas que todos os netos e filhos sentados ao redor podem contar. “Eles (mexicanos) entraram com garra, mas vão cansar. Tenho visto muito time que entra assim, e daí a pouco cansa”. Dito e feito. Acertou também que a Rússia passava da Espanha.

O costume de assistir ao futebol canarinho se firmou em 1958. Era ano do primeiro título do Brasil. A casa ia enchendo de gente que seu Dionísio, o esposo, ia convidando na rua a entrar e provar um pouco dos 46 kg de buchada que Palmira preparava durante toda madrugada. “Foi uma festa. E olha que era só no rádio, que a gente ia ouvindo e imaginando”, relembra. Naquela época, e em 1970, quando pela TV assistiu na casa vizinha ao tricampeonato, Palmira era fã de Pelé.

Depois, em 1994, com o tetra, a paixão virou para o Bebeto. “Ele era bom jogador, bom marido e bom filho”, conta sorrindo, e lembrando o icônico gesto de ninar que acompanhava os gols do atacante. Outro que encantou Palmira foi Roberto Carlos. Mas, mais que os gols, ela destaca um aspecto: “As coxas dele, você lembra?”, pergunta entre risos. Das coisas que prefere esquecer, Palmira fala do 7 a 1 com desgosto. “Nesse dia, eu saí aperreada de casa, esqueci de acender minhas velas. E deu no que deu. Ali foi maior decepção da minha vida”. Faltou-lhe a voz de tristeza, mas dessa infelicidade ela já se curou. Voltou a torcer, anota cada resultado na tabela, assiste aos jogos para analisar os adversários, e tem ganhado admiradores a cada jogo do Brasil, desde que a neta, a jornalista Viviane Sobral, mostra as peripécias de Palmira no Instagram.

Desta vez, diz gostar de todos os jogadores, mas não consegue esconder a predileção pelo Neymar. Ontem, terminava de engolir o almoço quando o camisa 10 inventou de fazer o gol. Se levantou de um pulo, abriu o sorriso que estava guardado, retomou a reza e chorou um pouquinho de emoção. “O coração da gente bate mais. Foi só o primeiro”. Percebeu, então, que não havia acendido a segunda vela, e tratou que acender. “Duas velas, dois gols”. E assim foi feito. “Foi melhor do que eu imaginava. Foi um espetáculo”, resume.

DOMITILA ANDRADE

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